
O jornalista e escritor Flávio Sousa, de Patos de Minas, teve um conto selecionado para uma coletânea internacional de realismo social. O texto, intitulado “Alô, Dona Jandira!”, foi avaliado com nota máxima pelo júri e agora concorre para ser escolhido como o melhor da publicação.
A seleção foi realizada pela Editora Palavra Ferida, filial brasileira da Editorial Palabra Herida, ligada ao Grupo Editorial Letras Negras S.A.S., com sede na Colômbia. A editora abriu um edital para receber textos de autores de vários países latino-americanos, com a proposta de reunir obras voltadas ao realismo social.
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O gênero busca retratar situações ligadas à realidade de trabalhadores, desigualdades e tensões sociais. No caso de Flávio, o conto foi inspirado na história de Madalena, mulher que viveu por décadas em situação análoga à escravidão em Patos de Minas e cujo caso ganhou repercussão nacional.
Na narrativa, a personagem aparece como Dona Jandira, amiga de um locutor da cidade. Ao longo da história, ele mantém contato com ela, mas não percebe a situação de exploração vivida pela mulher até que ela desaparece e o caso se torna manchete em todo o Brasil.
Segundo Flávio Sousa, o conto também foi inspirado em relatos do locutor e vereador Toninho Cury, que conversava com Madalena e compartilhava lembranças sobre ela. A proposta do texto é abordar a invisibilidade social e mostrar como situações graves podem permanecer escondidas mesmo diante de pessoas próximas.
Na resposta enviada ao autor, a editora informou que o conto foi aceito para a coleção de realismo social e recebeu pontuação 10/10. O júri destacou que o texto apresenta uma construção sensível e consistente das tensões sociais retratadas, além de uma revelação final capaz de ressignificar toda a leitura.
A avaliação também ressaltou a sensibilidade, o domínio narrativo e a força ética da obra. Caso seja escolhido como o melhor conto da coletânea, o texto poderá ser publicado em diversos idiomas e circular em diferentes países.
Flávio Sousa compartilhou com o Patos Notícias a íntegra do conto. Você, internauta, pode lê-lo gratuitamente abaixo:
Alô, Dona Jandira!
A rádio de manhã é silenciosa de um jeito diferente. Não é falta de barulho — é como se o som ainda não tivesse acordado direito. No estúdio, deixo o retorno só no fone; os amplificadores eu ligo depois. Costume antigo. Este quartinho forrado de espuma parece mais um depósito do que uma sala de transmissão, e às vezes tenho a impressão de que qualquer ruído aqui dentro fica preso para sempre, como poeira no carpete.
Todos os dias, nesse intervalo entre seis e seis e meia, dona Jandira toca o interfone. Já nem pergunto quem é. Ela aparece com um embornal azul pendurado no ombro e, lá dentro, meu café: bolinho de polvilho doce e chá de capim-cidreira numa garrafinha plástica antiga, meio amassada, dessas que parecem ter sobrevivido a muitas quedas. Durante o intervalo das seis e quinze, sentamos lado a lado e tomamos o chá ainda morno.
Sempre sorridente, dona Jandira pede um alô. Eu dou assim que volto para o ar. Ela escuta com atenção, o radinho de pilha encostado no ouvido, como se tivesse medo de perder alguma palavra ou como se aquela fosse a única voz que a reconhecesse no mundo.
No rádio, a gente lida com todo tipo de gente. Dos bacanas aos mais simples. Quase sempre é uma relação de um lado só. Poucos têm coragem de subir até o estúdio. E quando sobem, não é para conversar. É só para ver o rosto do sujeito de voz grossa que entra na casa deles todo dia sem pedir licença.
Foi assim que, outro dia, percebi que sei quase nada sobre dona Jandira. Ela chega, me chama de amigão, diz que sou a única companhia dela. Meu tio, que também viveu de microfone, dizia que ouvinte assim é gente muito sozinha, agarrada a qualquer voz que responda de volta. Talvez seja isso. Mas com dona Jandira parecia diferente, menos carência e mais necessidade, como quem segura uma borda para não afundar.
Já tentei puxar conversa algumas vezes, mas não adianta. Dona Jandira quase nunca se abre. Depois de muitos dias vindo ao estúdio com o chazinho, foi que contou morar ali mesmo, na Getúlio Vargas. As visitas são rápidas e o intervalo, embora seja o mais longo do programa, passa voando; o relógio da rádio corre mais depressa do que o da rua.
Certa manhã apareceu sem o chá de capim-cidreira. Pediu desculpas de um jeito aflito e disse que o pessoal da casa dela tinha reclamado do barulho do fogão às quatro e meia. “Amanhã eles viajam, aí eu trago pro senhor”, falou baixinho, como se estivesse contando um segredo proibido.
Disse que não precisava, que o biscoito já estava ótimo. E estava mesmo. Como não tomo café em casa, minha primeira refeição quase sempre vinha do embornal azul dela. Perguntei a idade. Disse sessenta e três. Depois corrigiu, dizendo que não lembrava direito, porque fazia tempo que não via os próprios documentos. Falou isso rindo, mas o riso ficou curto demais.
Com o tempo, acabei me afeiçoando àquela senhora. Era uma amizade estranha, feita de poucas palavras e muita presença, como certas músicas instrumentais que a gente gosta sem saber explicar por quê. Um dia convidei dona Jandira para participar do programa ao vivo, falar no microfone comigo. Ela riu, toda sem jeito, disse que tinha voz feia. Brinquei que bastava passar um perfume para conquistar o ouvinte. No fim, recusou. Disse que precisava perguntar ao pessoal da casa.
Perto do dia 15 de agosto, que é feriado de Nossa Senhora da Abadia, dona Jandira apareceu com uma pequena imagem da santa embrulhada em jornal. Perguntou se eu ia na caminhada. Disse que não, que não sou muito de igreja. Perguntei se ela iria. Respondeu que já não tinha idade para aquilo e que deixar as coisas de casa era complicado. Ficava muito cansada, disse, e se cansasse demais não ia dar conta de acordar cedo para trazer nosso chá. Fiquei meio sem jeito e agradeci pela imagem, que deixei ao lado da mesa de som.
O feriado passou e a rádio ficou fechada por três dias. Aproveitei a folga. Na segunda-feira seguinte, voltei mais cedo e esperei o toque do interfone, como sempre. Dona Jandira não apareceu. Nem no dia seguinte. Nem no outro. Com o tempo comecei a me preocupar. Fui até a Getúlio Vargas perguntar por ela. Alguns vizinhos disseram que a tinham visto na missa semanas antes, mas ninguém sabia dizer ao certo onde estava. A cidade grande o bastante para esconder alguém, pequena demais para admitir que não sabe.
Mantive o ritual e continuei mandando alôs para ela todos os dias, mais ou menos no mesmo horário. Brincava que estava me deixando com fome. Dona Jandira não apareceu. Já estava quase aceitando o sumiço. Ouvinte é assim mesmo. Some, reaparece, troca de estação. Faz parte. Só que com ela não foi assim.
Num domingo à noite, sentado no sofá com uma cerveja na mão, vi o rosto dela na televisão. A manchete ocupava metade da tela: “Mulher negra é resgatada após viver 38 anos em condições análogas à escravidão em Patos de Minas.” O nome era outro.
O rosto não.
Chamei minha esposa. Apontei para a tela. Disse: é ela. Ficamos olhando sem falar nada. Eu não sabia exatamente o que queria dizer “análogas”. Mas escravidão eu sabia. E pensava no assunto como um mito, coisa extinta, com um bicho que desaparece do mato.
Não consegui dormir naquela noite. Fiquei pensando nela, acordando às quatro da manhã todos os dias. Não por gosto, não pelo chá. Sempre achei que ela dizia muito pouco sobre si, mas na verdade dizia sem dizer. Sabia que aquele seria o assunto da cidade e que os ouvintes ligariam querendo detalhes. Era inevitável ter de ler a notícia. Fiquei ensaiando o tom, mas só me vinha à cabeça a voz dela dizendo que achava a própria voz feia. Só me lembrava do sorriso simples. E agora ela viraria notícia, pelo meu microfone.
Na segunda-feira, havia mais silêncio na rádio do que de costume. Pela primeira vez desde a minha estreia na profissão, senti nervoso antes de entrar no ar. Abri a porta do estúdio: o microfone gasto, as paredes de espuma e, ao lado da mesa de som, a pequena imagem de Nossa Senhora da Abadia que ela havia me dado. Esperei o interfone tocar. Um hábito que ainda não tinha perdido.
Às seis e trinta, no primeiro boletim do dia, li a nota:
— Patos de Minas amanhece em choque. Uma mulher negra foi resgatada, pela Polícia Federal, após viver por décadas em condições análogas à escravidão em um apartamento da Avenida Getúlio Vargas…
Continuei lendo, mas já não prestava atenção nas próprias palavras. A voz saía automática, como sempre saiu. Profissional. Limpa. Sem tropeço. Quando terminei, ficou apenas o ruído baixo do estúdio. Olhei para o interfone. Nada. Respirei fundo e voltei ao microfone.
— E um alô especial para dona Jandira, nossa ouvinte de todas as manhãs… onde quer que a senhora esteja. Pela primeira vez, não consegui me ouvir.
Soltei a vinheta e deixei a música entrar.
A música tocava, mas eu não fazia ideia de qual era. Fiquei olhando para a luz vermelha “no ar”. Pensei em quantas manhãs ela esteve ali, a poucos metros de mim, carregando um embornal e uma vida inteira que eu não tive curiosidade suficiente para enxergar.
Eu falava para a cidade inteira e não consegui ouvir a única pessoa que falava comigo todos os dias. Olhei de novo para a imagem de Nossa Senhora da Abadia. O jornal amassado que a embrulhava ainda estava na lixeira, como se tivesse sido jogado fora junto com o resto da história dela. Tive vontade de ler a matéria completa, de saber nomes, endereço, quem fez aquilo, há quanto tempo, mas não consegui. Parecia que qualquer detalhe a mais transformaria tudo em algo concreto demais, e eu não tinha certeza se queria isso.
Talvez fosse mais confortável pensar nela apenas como ouvinte. Como “dona Jandira”. Como alguém que existia só na frequência da rádio. O interfone permaneceu mudo. Imaginei-a em algum hospital, numa sala branca demais, sem saber onde estava, talvez sem um rádio por perto. Pensei que, se ela ligasse naquele momento, eu não saberia o que dizer. Não havia roteiro para aquilo. Nenhuma vinheta, nenhum patrocinador, nenhuma trilha suave para amortecer o silêncio.
E, pela primeira vez, me ocorreu que aquele chá nunca foi um gesto de gentileza. Era uma permissão. Um pedido de existência. A música terminou. O operador fez sinal pelo vidro. Era hora de voltar. Aproximei a boca do microfone. Respirei. O profissional dentro de mim sabia exatamente o que fazer: sorrir na voz, dar bom dia, anunciar a próxima notícia, seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Mas fiquei parado. Se eu falasse, tudo voltaria ao normal; e talvez o normal fosse exatamente o problema.
A luz vermelha continuava acesa. Do lado de fora, a cidade acordava. Dentro do estúdio, só o zumbido baixo dos equipamentos e o peso de um nome que nem era o dela. Por um instante, pensei em desligar o microfone e ir embora. Descer até a Getúlio Vargas. Bater em todas as portas. Fazer alguma coisa que não fosse falar. Não fiz.
Inclinei-me para a frente e disse, com a voz firme de sempre:
— Sete horas e dois minutos. Bom dia, Patos de Minas.
A vinheta entrou perfeita. E eu soube, naquele momento, que dona Jandira tinha desaparecido duas vezes.
















Parabéns, pelo texto, gostava de ouvir você quando trabalhava na ” rádio “, mas via que você era diferente dos seus colegas, provocador, insisivo, conhecedor das suas falas. Por quanto, nas entrevistas com o patrão, não alisava o ego dele, como seus colegas o faziam. Enfim, ficou provado que a rádio não merecia ter você dentro dela.
👏👏👏 Que legal. Parabéns, Flávio!
Flávio sabe o caminho das pedras e tem o domínio dos labirintos da escrita. Adiante, meu Chapa!!! Abraço forte!!!
Inteligência excepcional! Flávio é fera 👏👏👏. Parabéns!
Esse é meu amigo Flávio 👏🏻👏🏻👏🏻
Parabéns
Que orgulho! Parabéns! 👏👏👏
Parabéns, Flávio.
Muito feliz por esse trabalho tão importante.
Sucesso sempre.👏
Grande Flávio! 👏🏽👏🏽👏🏽
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