Psicanalisar e Educar: artes de lidar com as transferências de afetos

Leia o texto desta semana da colunista Fernanda do Valle. Aproveite e deixe seu comentário no final.
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Psicanálise e Educação. Dois campos de saber específicos que, em princípio, podem gerar estranhamento a alguns quando se pensa na interface entre eles. Afinal, por qual razão podemos dizer que um psicanalista e um educador se aproximam em suas práticas, em si tão específicas?

Para responder a esta questão vamos recorrer a Sigmund Freud em dois momentos distintos de sua trajetória teórica. O primeiro momento, em 1913, no texto Psicologia do Escolar, quando Freud faz uma homenagem ao cinquentenário da escola em que ele cursou os seus estudos fundamentais e no célebre trabalho Mal-estar na Civilização, de 1932.

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Todos nós sabemos que a escola é a segunda instituição de vínculo da criança, depois da família. Hoje em dia, o ingresso das crianças na escola vem sendo feito cada vez mais cedo. É grande o contingente de crianças que sequer tem a lembrança de seu primeiro dia na escola, pois é como se elas já tivessem nascido lá! Contudo, isto não as isenta de vivenciarem certos impasses e, de certa forma, colocarem seus professores também no centro de tais impasses.

Na trajetória de desenvolvimento de uma criança é esperado que ela consiga se ligar ao universo escolar para que possa se apropriar dos conteúdos vinculados pela escola. Freud, em 1913, nos esclarece que é exatamente sob este ponto que reside boa parte do processo educativo. Isto porque as crianças transferem dos pais para o professor e para a escola como um todo, parte da carga primária de afeto que as ligam à família. Logo, tendem a tomarem seus professores como substitutos de seus pais. E vocês podem estar se perguntado: se é desta forma, por que há tantos desencontros entre os alunos e seus professores?

Primeiramente, é preciso observar a existência de certo consentimento da criança em estabelecer tal transferência. Muitos dos problemas vividos por uma criança em seu processo de escolarização podem residir neste consentimento. E é bom que se diga que ele não é, de forma alguma, algo de origem consciente. Não se trata de a criança dizer algo como – “Ok! Agora eu quero ir para a escola e vou consentir em depositar em minha professora e na escola todo o afeto que tenho por meus pais”. Afinal, quantas vezes temos notícias ou mesmo já observamos crianças muito pequenas que pedem para serem matriculadas, mas não conseguem se separar dos pais à porta da escola? Ou ainda aquelas crianças maiores, às vezes tidas como desatentas ou rebeldes à autoridade do professor que, ao serem interrogadas sobre o que estão pensando durante a aula, irão nos dizer que não conseguem prestar atenção ao que se passa porque ficam pensando em seus pais e deles sentem saudades? Portanto, estar na escola exige a renúncia de um afeto de amor e a transferência deste afeto para outras figuras, sejam professores ou mesmo os colegas. Estudar também é um ato da mesma ordem, uma vez que nos exige renunciar à satisfação imediata de nossos anseios mais primitivos.

É neste primeiro ponto que a Psicanálise pode estabelecer uma interface com a Educação, pois se escutamos as crianças a partir do que há de inconsciente nestas manifestações de desatenção e recusa, nós podemos subverter o vetor de análise dos fenômenos experimentados pelos alunos e auxiliá-los a encontrar um novo posicionamento frente a este momento tão importante que é o da entrada e da vinculação a esta nova ordem social que é a escola.

Uma preocupação pode surgir nos educadores a partir das afirmativas que fazemos aqui, pois pode parecer que os estamos orientando a agirem como se fossem pais dos seus alunos. Nada disso! Aqueles que se impuserem esta missão, irão logo perceber a impossibilidade disto acontecer e bem frequentemente sentirão na pele os efeitos disto. A sensação de impotência diante de algumas realidades familiares vividas por seus alunos, o sofrimento por não poder auxiliá-los e a construção de uma fantasia de que tudo o que o aluno faz em sala de aula faz para irritar o professor podem ser fenômenos construídos pelo educador como resposta sintomática a tal pretensão. Muitas vezes, o resultado disto é o adoecimento psíquico dos professores.

Contudo, é preciso que estes profissionais estejam cientes da existência de afetos e de construções inconscientes que perpassam todo o processo de ensino e aprendizagem, bem como do endereçamento que o aluno faz de tais questões para a figura do professor. Nós acreditamos que saber sobre isto também permite que os educadores se reposicionem em seu ofício, uma vez que pode auxiliar o professor a desmistificar uma série de situações vividas por ele em sala de aula. Desta forma, por fim lembramos aos educadores o mesmo alerta que Freud faz ao psicanalista, em 1932, o psicanalisar, o educar e o governar compõem a tríade das profissões impossíveis. Sempre restará algo a ser feito!

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