Praça da ciência

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Valorizem-se a ciência e seus cultores que tomaram as vias e praças de todo o orbe neste fim de semana.

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Foto: Divulgação

Sábado, 22 de abril, cientistas propugnam nas ruas do mundo. Deixaram os casulos das pesquisas. Não é o ideal, porque cientistas precisam de paz. A esses homens – que, efetivamente, modificam o mundo -, só interessam fatos. Reais, não alternativos. Descobertas científicas não se restringem, não se contêm, devem exaurir-se até o extremo da evidência. Não se toleram leviandades. As mais ousadas descobertas, como as dos bósons de Higgs, capazes de esclarecer nosso nascimento, foram espetáculos midiáticos. Descobrira-se Deus. Os cientistas meteram o pé no freio.
Há nomes de peso que discordam da ocupação do espaço público. A ciência seria eclipsada pela ideologia. “O plano da marcha dos cientistas em Washington compromete seus objetivos com uma retórica de esquerda”, escreveu no Twitter o cientista Steven Pinker, da Universidade de Harvard. Não cremos. A uma, pela responsabilidade da comunidade científica. A duas, pela degradação das ideologias, cedo ou tarde.
A ciência trouxe o conforto ao homem que a política jamais sonhou. A política está há anos-luz atrás. Por admitir a alternativa como fato e demagogia como evidência. O então Partido Comunista Soviético fez pouco dos cientistas que alertaram sobre Chernobyl. Deu no que deu.
Ainda assim, os cientistas poupam Trump. Para não politizar o movimento ou porque a figura é indigna de ser objeto da ciência. Porém, ninguém ignora que o pândego já classificou o aquecimento global como farsa e que pretende cortar um quinto das verbas americanas para as pesquisas de saúde. A manifestação contradiz a direita e a esquerda, desfeitas pela história e o nacionalismo xenófobo que se antepõe ao código universal das ciências.
Diz o grupo das ruas que não pode deixar de levantar a voz. Com razão, sob pena de a última esperança da humanidade ser soterrada pelos medíocres do poder. Se a razão não prevalece nos meios políticos, tal qual nos centros de pesquisa, isso deve ser dito, em bom som. Entre as presenças confirmadas na marcha mundial, registrem-se a bióloga Lydia Villa-Komaroff, que ajudou no processo de descoberta de bactérias produtoras de insulina humana, e de Christiana Figueres, Secretária-Executiva da ONU para a Convenção do Clima.
No Brasil, os cientistas sustentam que as coisas são mais graves. Há possibilidade franca de nos confirmarmos como Republiqueta, se não há verbas sequer para manter o Maracanã, tão perto do povo e tão longe das ciências. O exemplo mais eloquente de criar-se fato alternativo e converter-se verdade em retórica está na extinção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e sua fusão com o Ministério das Comunicações. Comunica-se o que se quer. A manifestação paulistana será no Largo da Batata. Os vereadores, que se agitam em dar nome às ruas, poderiam transformá-la em Praça da Ciência, ainda que nosso destino não a concretize mais do que o velho tubérculo nipônico.
Os cientistas perceberam que têm de lutar para existir. Do contrário, no palco dos discursos políticos, viveremos a sonhar com Trolls, Ogres, Goblins, Elfos e Anões, que agradam tanto às crianças, e também aos homens. Ficaremos extasiados com seres divinos, imortais, mágicos, luminosos e numinosos, conotados com a natureza e com a fertilidade, a viver em colinas, contrafortes, fiordes, sob a terra, em fontes, rochas e outros rincões longes dos mortais.
O mundo onírico, determinado, em especial, pela política menor, leva-nos de regresso à Idade Média. Salvo se a ciência resgatar seus objetivos maiores. São eles que devem ser ouvidos, já que nas academias não transpõem suas portas imemoriais. A alternativa está em expor a ciência sobre as asas de liberdade dos condores.
A liberdade da linguagem científica séria e única foi o móvel das manifestações. Ela é incompatível com diversas versões. Precisamente o contrário da manipulação do verbo, feita pelos governos. Não se trata do Corão, porquanto este foi uma manifestação literária – brilhantíssima, por sinal -, porém estática, escrita, segundo a crença, no reino divino e revelada aos poucos ao profeta. A literatura científica é sempre evolutiva, mas procura bravamente o consenso da comunidade, a submissão aos testes, até que possa ser enunciada. A verdade final da medicina pode ser exposta em poucos livros. Advogado há quarenta e cinco anos, minha maior decepção é quanto a instabilidade de nossa literatura.
Vide o excesso de obras jurídicas, num País em que o direito é simplesmente a lei e a Constituição, como dizia Kelsen.
Todos os processos, em que o justo se revela até intuitivamente, podem ter sua busca contestada por décadas e por advogados acabados de ingressar nos cursos. Daí a instabilidade do direito, cuja natureza científica pode até mesmo ser controvertida: a “insegurança jurídica”. Aí está: caixa dois é crime ou é um costume político-partidário, posto que o costume também é fonte do direito? Prescrição na certa.

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Amadeu Roberto Garrido de Paula
25/04/2017

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