O Suicídio entre Universitários e a Lógica do Mestre do Capital

Nesta semana a colunista, Fernanda do Valle, fala do suicídio. Confira o texto e não esqueça de deixar seu comentário no final.
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Suicídio entre universitários
O suicídio é o tema desta semana da coluna de Fernanda do Valle.

Quando alguém comete suicídio, a primeira pergunta que fazemos é: “Mas, por que?”. Em sendo uma pessoa jovem, a frase ainda ganha o complemento do “Ele tinha tanta vida pela frente!”, ou ainda, o tom de reprovação – “Que desperdício!”. Não raro, após uma tentativa de suicídio malsucedida ainda se escuta algo como: “É muito novo! Fez o que fez só para chamar a atenção”. Nos serviços de atenção à urgência e emergência em saúde, estes casos ganham tratamentos distintos, conforme a representação que os profissionais de saúde tenham sobre a adolescência e sobre o suicídio. Frequentemente, as concepções destes profissionais são permeadas de valores morais altamente reprovadores, conforme pudemos identificar no estudo Adolescentes Suicidas: estudo de caso sobre um conceito sintomático para os profissionais de saúde de um Pronto Socorro, de autoria de TEIXEIRA, BRAGA, VALLE CORRÊA RAMOS e ALVES (2016), e publicado na revista Perquirere, em junho de 2016. Este estudo nos dá a indicação que é preciso considerar que estamos diante de uma juventude que, nem sempre é levada a sério em seus ímpetos e angústias por aqueles que estão ao seu redor.

Alguns dados estatísticos nos mostram a que este tipo de conduta pode nos levar. No Brasil, entre os anos de 2011 e 2015 o número de suicídios aumentou em um percentual de 12%, segundo dados do Boletim Epidemiológico de Mortes por Óbito e Suicídio, produzido e divulgado pelo Ministério da Saúde em 2017. Entre os jovens de 15 a 29 anos, registrou-se o percentual de 20% de mortes por suicídio, o que equivale à segunda causa mortis entre esta faixa populacional, também de acordo com o referido boletim.

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Por sua vez, entre 2017 e 2018, as ocorrências de suicídio entre jovens universitários têm tomado as páginas de noticiários dos principais veículos de comunicação no país. Entre tentativas e casos consumados, os casos ocorridos nesse período na maior universidade do Estado de Minas Gerais, a UFMG, bem como em outros centros universitários, tal como o jornal Folha de São Paulo online noticiou no último dia 01/08 sobre as ocorrências na Universidade de São Paulo – USP, tem ensejado ações de acolhimento e prevenção por parte de alguns centros universitários. No entanto, essas ocorrências não se inscrevem de forma específica no Boletim. Então, o que pode significar este indicador “universitários que cometeram suicídio”?

Vamos pelo princípio. O ato suicida é primeiramente um pedido de socorro. Contudo, trata-se de um pedido cuja premissa básica é a ruptura dos laços do sujeito com toda a trama do tecido simbólico e social em que ele se insere e que o sustenta. Ou seja, com os afetos, com a família, com as conquistas profissionais, com a comunidade em que se está inserido e, principalmente, com a possibilidade de se rearranjar diante do impossível que a vida nos traz. Ora! Este impossível não é só para “gente grande”, já estabelecida na vida! Ele se apresenta a todos nós, a todo momento, nos exigindo a invenção de saídas para nossos impasses e embaraços. Mas, infelizmente, nem todos nós conseguimos tecer uma saída que nos afaste do buraco da angústia.

Quanto à angústia, Lacan (1963) afirma que ela é um afeto que se faz presente quando a falta, falta.  Esta é uma maneira de dizer que nós nos angustiamos quando não mais conseguimos sentir desejo, quando desistimos de buscar por algo que não sabemos bem o que é, mas que mesmo assim nos coloca em movimento. Quando alguém decide interromper sua própria vida, é esta dimensão do desejo que entra em curto circuito. É como se o sujeito tivesse feito um encontro perfeito com um objeto que, inconscientemente, ele julgava ter perdido e, conscientemente, ele não sabe bem do que se trata. Nada mais falta!

Nossa prática clínica nos ensina que o que se coloca em cena num momento da passagem ao ato suicida é a urgência subjetiva diante da emergência da angústia – elemento com o qual devem lidar as equipes de saúde e das demais instituições em que estes jovens se inserem. Outro ponto a ser considerado é que, em regra, o ato suicida é precedido por uma série de convocações que o sujeito faz ao olhar do outro. É como se o sujeito tivesse, sim, buscando certa atenção, o que pode acontecer pela via da agitação dos afetos e ações mas, também, pela via da quietude e da reclusão. Portanto, se no ato suicida há uma ruptura e um desvanecimento subjetivo, no tempo que o precede tende a haver um chamado que não pode ser banalizado. E, em relação ao seu endereçamento, é preciso compreender que ele pode se dirigir a qualquer um, em qualquer espaço institucional. Desta forma, é curioso pensar que estes jovens universitários estão tentando nos dizer que o ambiente universitário tem se tornado, por assim dizer, uma empresa em que o mestre do capital gera exigências exacerbadas de sucess – forma de sintoma social contemporâneo que deixa poucas pausas e margens para que o sujeito se confronte com as impossibilidades da vida. É isso que em alguns casos se recolhe a partir de declarações de amigos e familiares de jovens universitários que tentaram se matar.

Em minha prática clínica, tanto em consultório particular quanto como psicóloga clínica e educacional de uma instituição de ensino superior, que preocupada em acolher as urgências subjetivas de seus alunos, há um ano e seis meses mantém um serviço especializado de atenção psicológica a seus alunos, várias vezes eu escuto de meus pacientes que “É preciso saber o que se quer e batalhar duro por isso.”. Ou ainda – “Dei duro no cursinho para passar no vestibular. Estudava até 18 horas por dia. Agora não posso deixar minhas notas caírem porque as notas da graduação contam pra residência. Mal consigo ter tempo para comer, mas não posso parar.”. O que se extrai nessas falas é uma dimensão de sacrifício físico e subjetivo.

Neste cenário de urgência pelo sucesso em que estamos inseridos na contemporaneidade e que tem se colocado para os estudantes desde o ensino médio e, por vezes, desde o fundamental, o desejo vira meta a ser conquistada.  Frequentemente, o prazer que deveria acompanhar o ato de aprendizagem e da convivência acadêmica se esvai, em alguns casos, arrastando o sujeito para o pior. Apesar do estopim para isto ser a afecção por uma angústia insuportável, destacamos que a questão aqui não é de dizer que a universidade em si causa o suicídio de alguns de seus alunos. O que podemos considerar como sendo este elemento de causa é extremamente particular à forma que cada um estabelece para lidar com seus embaraços e nem sempre facilmente apreensível.

Mas, trata-se de pensar que quanto mais aparelhado ao discurso do mestre do capital e às exigências de sucesso deste mestre a Educação como um todo fica, mais sofrimento se recolhe neste contexto. Neste aparelhamento há uma tendência de que os sujeitos devem passar a responder a partir de uma idealização desmedida em relação ao sucesso. Um dos caminhos para isto se torna o sacrifício.

É neste ponto que os casos que se referem ao indicador “universitários que cometeram suicídio” nos convoca a um olhar diferenciado sobre o processo educacional. Um olhar que não se faça somente através da instituição de serviços psicológicos de atenção à urgência subjetiva nas universidades ou de dispositivos específicos de alerta e marcação de consultas, tal como foi implantado recentemente na USP, mas também através da revisão de tais processos. A mim tem parecido ser necessário introduzir, a partir de cada caso, algumas flexibilizações ao processo educacional e pedagógico. Não dá para exigir de forma igualitária de um aluno que se apavora e se sente zombado quando exposto à apreciação dos colegas. Nisto a Psicanálise pode ensinar à Educação sobre a lógica do caso a caso, uma vez que nem todo modelo pedagógico serve a todos os alunos. Também que nem todo esforço a mais é garantia do sucesso.

No mais, seguimos a aposta de que palavra que não se cala, é palavra que não mata! E que palavra para ser dita e escutada demanda um tempo de pausa – tempo para um deslocamento da necessidade cega ao questionamento sobre o desejo, para daí se fazer emergir um novo laço de vida!

 

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