Monitor de Inclusão para Alunos Autistas: do papel técnico à posição do duplo junto ao autista

Artigo produzido pela psicanalista Fernanda do Valle Corrêa Ramos.
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A questão da inclusão educacional de pessoas com necessidades especiais permeia o universo nacional da Educação desde a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em 1996. Ao longo dos anos, tal questão ganhou consistência na prática escolar e, em 2008, a inclusão destas pessoas nas escolas regulares finalmente ganhou uma formalização que propõe que o aluno especial esteja não só inserido nestas instituições, mas que seja alvo de ações pedagógicas específicas, promovidas em modalidade de atendimento educacional especializado, preferencialmente realizado no ambiente escolar ou em instituição referenciada à escola. Também, desde então, as regulamentações legais dentro do campo da Educação Especial Inclusiva ampliaram o leque do público considerado como público-alvo das práticas pedagógicas inclusivas e, desta forma, alcançou as pessoas com autismo.

Neste cenário, houve a introdução de uma figura importante junto às práticas pedagógicas voltadas para estas pessoas – o monitor de inclusão, por vezes também chamado de auxiliar de inclusão ou ainda de professor apoio. O seu papel é o de auxiliar o aluno e os professores regentes no que diz respeito aos processos pedagógicos e educativos, de forma a ofertar condições de socialização e aprendizagem que possibilitem o desenvolvimento do aluno autista em maiores condições de igualdade em relação a seus pares de idade. Desta forma, este profissional cumpre um papel importantíssimo junto ao aluno autista, na escola regular. É com este profissional que o aluno passará boa parte de seu tempo, enquanto estiver na escola e, de certa forma, a ideia aqui estabelecida é que ele lhe sirva de guia durante sua permanência na instituição.

Contudo, ao contrário do que se encontra sedimentado em termos de ações de atendimento educacional especializado para deficientes motores, visuais ou auditivos, no que se refere aos alunos autistas, uma gama de dúvidas sempre é suscitada e não deixa de alcançar o trabalho do referido profissional. “O que é o autismo?”, “O que pode um autista numa escola regular?”, “O que ele é capaz de aprender?”, “Como devo fazer para ensiná-lo?”, são questões que ouvimos em encontros com estes profissionais nos ambientes de formação ou em pesquisas que já realizamos em algumas escolas. Entendemos que, normalmente, elas são uma espécie de resposta à angústia da diferença radical apresentada pela síndrome autística e à tentativa de operar sobre esta diferença, de forma a cumprir com o papel a que estes profissionais foram convocados. E, de fato, muitas vezes esta é uma é uma equação difícil de solucionar. Difícil, mas não impossível!

Por estarmos norteados pela Psicanálise de Orientação Lacaniana, nossa resposta a estas interrogações costuma ser com outra: “O que você sabe sobre a vida deste aluno, o que conhece sobre ele?”. Trata-se de um manejo que busca direcionar o monitor de inclusão para outra mirada. Para aquela que visa identificar o sujeito por detrás do diagnóstico sobre a síndrome e, consequentemente, por detrás de todo e qualquer rótulo de incapacidade que o diagnóstico de autismo às vezes termina por estabelecer para quem o recebe. Afinal, cada sujeito é único! Único, inclusive em sua diferença.

Na condução clínica dos sujeitos autistas, muitas vezes o psicanalista atua como um “duplo” do autista; referência conceitual legada por Éric Laurent, psicanalista francês que se dedica à investigação do autismo, em seu livro “A Batalha do Autismo: da clínica à política”, publicado pela Editora Zahar, em 2014. Em linhas gerais, é como se fosse necessário existir uma figura que operasse para o autista como uma sombra, uma imagem especular que lhe auxiliasse a organizar a si e ao mundo que o cerca.

A partir da exploração deste conceito e do estudo de cada caso de inclusão, nós entendemos que o papel do monitor de inclusão passa a ser, em muitos casos, o de fazer o duplo para o aluno autista. Assim, mais que um papel técnico é preciso que os monitores de inclusão se ocupem de uma posição e que busquem fazer uma aposta no sujeito. Isto requer apostar na construção de uma saída singular construída por cada aluno. A nosso ver, cabe ao monitor de inclusão acompanhar a construção desta saída, a partir de uma posição subjetiva que esteja atenta aos detalhes cotidianos indicado na trajetória educacional de cada aluno que esteja a seu encargo.

A visada no sujeito – em seus costumes, gostos, preferencias, modos de se comportar, às vezes em suas breves aberturas ao outro, permite apontar uma saída possível, não do autismo, mas para o sujeito autista em seu impasse de ter que lidar com um universo que para ele também traz a marca de uma diferença radical.  Mais que um saber técnico prévio sobre o que é o autismo e sobre as capacidades de aprendizagem de um autista, entendemos que, como um dos pilares do atendimento educacional especializado, o monitor de inclusão deve ter uma disposição para aprender com seus alunos.

Acreditamos que o monitor de inclusão pode ser esse “duplo”, esse parceiro discreto que, mesmo assim, marca sua presença e se faz destinatário das construções cotidianas do aluno no espaço educacional e escolar. Isto é uma das questões que a Psicanálise de Orientação Lacaniana pode nos ensinar sobre o trabalho com os autistas em ambientes escolares e educacionais!

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