Especialistas internacionais apresentam novas tecnologias na gestão de barragens

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Sistemas de monitoramento on-line de barragens, com dados abertos ao governo e à população, e técnicas que avaliam os riscos quanto à segurança dos diques estão na lista de tecnologias apresentadas por empresários holandeses e chilenos a representantes do setor em Minas Gerais.

As experiências do país europeu e do Chile foram compartilhadas no segundo dia do I Seminário Internacional de Tecnologias e Gestão de Barragens, realizado nos dias 24 e 25 de janeiro, na sede do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG), em Belo Horizonte. 

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O evento foi promovido pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam) e pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), com o apoio do Crea-MG e do Sindicato da Indústria Mineral do Estado de Minas Gerais (Sindiextra).

O país europeu tem a maior parte do território abaixo do nível do mar e tem tradição na construção de diques para contenção da água. Já o Chile tem histórico de terremotos, o que redobra a atenção com as estruturas. O sucesso dos sistemas naquele país passa por exigentes projetos, sistemas de monitoramento e gestão, detalhados pelos empresários no evento. 

Representando a Deltares, empresa fundada em 1920 e que atua na construção de diques na zona costeira e ao longo dos rios holandeses, o português Miguel Dionísio Pires falou sobre a importância de se ter uma documentação robusta com todos os detalhes das barragens. Pires observou que, assim como no Brasil, na Holanda não se sabia qual o material utilizado para construir os diques.

“Hoje, já temos uma documentação que nos permite conhecer cada estrutura”, afirmou. Ele disse, também, que simulações são feitas constantemente, levando-se em conta o tamanho real da estrutura para gerar sistemas de segurança e saber melhor como os diques funcionam”, esclareceu.

A Deltares ainda se associa a outras empresas para complementar suas atividades, como é o caso da parceria com a Skygeo, na qual utilizam tecnologia de micro-ondas transmitidas por satélite, que permite identificar deformações no solo. “Fizemos um exercício em uma barragem em Minas Gerais, utilizando imagens por satélite captadas ao longo de dois anos”, disse Pires.

Outra preocupação dos holandeses é quanto às inundações provenientes do continente. Miguel Pires lembrou uma série de alagamentos nos anos 1990, decorrentes do degelo excessivo dos Alpes, que provocaram muitos danos.

“A partir do episódio, foi elaborada uma base de dados, um sistema de gestão que permite a realização de previsões e que é usado no mundo todo, inclusive pela Cemig, em Minas Gerais”, pontuou.

Dados

O monitoramento de dados referentes à condição das estruturas é apontado pelos especialistas estrangeiros como fundamental para o sucesso dos empreendimentos.

“Os sistemas de gestão de risco são importantes, mas os dados têm de vir de algum lugar”, observou o holandês Sander Baseliers, da empresa Van Essen, em sua apresentação.

Os holandeses produzem um dispositivo conhecido como Diver, similar a uma gota d´água, que é largamente empregado no mundo todo para coleta de dados de água de superfície e subterrânea. Segundo ele, os dados das condições das barragens são disponibilizados tanto para o governo, quanto para a população, que pode acessá-los de qualquer lugar. 

“Desde o aparecimento do equipamento, nos anos 1990, surgiu a miniaturização e o produto se alterou muito”, afirmou Baseliers. Uma das aplicações do Diver, segundo o holandês, ocorre na Mina do Pico, em Itabirito, para medição de águas subterrâneas, além de usos similares na própria Holanda e do monitoramento de uma barragem de rejeitos, no Chile.

Cor Verbruggen, da empresa Eijelkamp Soil and Water, que atua no manejo e uso da água, destacou a sonda sônica utilizado pela empresa. A ferramenta desenvolvida abre caminho para a instalação de sensores para a coleta de dados. “Nosso equipamento gira em alta velocidade e liquefaz o entorno”, afirmou.

Outro ramo da Eijelkamp, segundo Vebruggen, “é a coleta e a disponibilização dos dados, que podem ser níveis de água, pressão, deslocamento de corpos, turbidez e dados meteorológicos”, destacou. “Os dados, no entanto, precisam ser validados já que os sensores, sozinhos, não são confiáveis”, completou.

Pés secos

“A Holanda tem experiência acumulada na construção de diques para manter nossos pés secos”, lembrou o representante da Witteveen & Bos, Siefko Slob.

Ele observou que há séculos o país usa os mais diversos materiais na construção, até mesmo o lixo. “As alterações são frequentes, como as mudanças de maré e o comportamento dos rios, como nas inundações de 1953, que provocaram muitas fatalidades”, observou.

Slob afirmou que a Holanda desenvolveu todo tipo de novas tecnologias para monitoramento de diques de contenção de água, inclusive um de realidade virtual, que permite visualizar a estrutura de todos os ângulos. “A gestão de riscos de uma barragem exige conhecer não só o lago de rejeitos, mas todo o entorno, a geologia e as condições hidrológicas”, disse.

O holandês destacou, também, um trabalho realizado pela empresa em Bor, na Sérvia, onde está em curso um projeto de recuperação em uma área onde não havia mais biodiversidade. “A região se tornou um verdadeiro inferno, até mesmo se comparada ao cenário deixado pelo rompimento da barragem de Fundão”, explica.

Chile

As operações de empresas mineradoras no Chile também foram destaque no Seminário Internacional de Tecnologias e Gestão de Barragens.

Javiera Ortiz Sal, da empresa Arcadis, apresentou aspectos do licenciamento ambiental no país. “O primeiro marco regulatório de barragens de rejeitos chileno foi criado após um terremoto em 1865, que provocou o rompimento de uma barragem que causou muitas mortes”, afirmou.

Segundo Javiera, o Chile, por ser um país estreito, sem muito espaço, exige estruturas altas, com barragens de até 100 metros de altitude. “A manutenção da barragem também é complexa num país sujeito a muitos abalos sísmicos”, completou.

Crédito: Janice Drumond

Maurício Gómes, também representante da Arcadis, completou a apresentação explicando que, no Chile, os grandes empreendimentos precisam elaborar Estudos de Impacto Ambiental, que precedem as autorizações dos Ministérios das Minas e do Trabalho.

“Os principais critérios incluem a vazão máxima, estudos de estabilidade e análises de cenário pós-terremoto”, explicou.

Gómes lembrou, ainda, que o Chile é um dos países com maiores índices de abalos sísmicos do mundo. “Tivemos um terremoto de 8,3 pontos na escala Richter, em 2015, e outro de 8,8 em 2010”, afirmou.

A escala Richter se inicia no grau zero e é infinita teoricamente. No entanto, nunca foi registrado um terremoto igual ou superior a 10 graus.
 
Drenagem

Berry Benjert, representante dos estaleiros Damen, demonstrou os diferentes tipos de embarcações e bombas construídos pela empresa, que são empregados na drenagem de corpos hídricos.

Ele observou que os equipamentos têm diversos tamanhos, ideais para atender à extração de minérios. “A mineração está em locais de difícil acesso, onde ruas e canais não chegam. E nossos produtos permitem que o material (o minério) seja transportado”, afirmou. 

Benjert comentou, também, sobre um projeto em que a Damen está envolvida no Canadá, onde é feita a separação de óleo da água de um rio. “Estamos conscientes do risco que a atividade tem e dos desafios de nota etapa que vive a mineração”, enfatizou. “O reuso do material das barragens de rejeito é uma nova experiência”, completou.

Por sua vez, o representante da Dutch Dreging, Jeroen Ginneke, apresentou trabalhos de dragagem realizados pela empresa, que foi fundada em 1960. Com atuação em todo mundo, os holandeses já desenvolveram projetos no Brasil , nos portos de Fortaleza, Rio de Janeiro, Santos, Paranaguá, São Francisco do Sul e São Luís.

“Em São Luís, temos um trabalho em dois portos de uma empresa local para dragagem, em que é utilizada a técnica de injetar ar e água sedimento localizado no fundo da água”, afirmou Jeroen Ginneke. “Já no porto de Ashdod, em Israel, iniciamos um projeto inverso, em 2016, em que já foram colocados 6 milhões de metros cúbicos de areia em pontos específicos, tomando o cuidado para não interferir nas outras operações do porto”, completou.

Ginneke observou que cada vez mais é necessário buscar alternativas para retirar material aproveitável dos rejeitos, já que o minério de alto teor já foi recolhido. “Numa comparação, as frutas mais fáceis de pegar já foram colhidas”, explicou.

A recuperação de rejeitos foi o tema principal da apresentação de André Bastos, representante da Royal IHC. Segundo ele, a empresa tem dois ramos de atividade que podem ser bem aproveitados em Minas Gerais: o desenvolvimento de operações de secagem e a recuperação de rejeitos.

A Royal IHC é uma empresa de construção de equipamentos, como navios e máquinas para mineração. Entre as atividades realizadas pela empresa está a dragagem marítima e a operação de desobstrução de corpos hídricos associadas a plantas de operação de empresas.

“Para realizar um plano de dragagem eficiente, é preciso fazer uma caracterização do solo, calcular o volume que será retirado e definir a área de disposição”, observou.
 
Encerrando as apresentações do seminário, o especialista em melhoramento de processos da Hencon, Stef Sep, apresentou as soluções da empresa que constrói equipamentos não padronizados, como veículos utilizados em pátios de mineração.

Uma dessas máquinas é uma escavadeira instalada sobre um grande chassi flutuante que se movimenta sobre a lama em depósitos de rejeitos para executar a dragagem e a secagem.
 
“Um projeto que realizamos foi a secagem de uma área de rejeitos, depois a disposição de uma nova camada com nova secagem e assim sucessivamente, criando uma espécie de lasanha de rejeitos, aproveitando a mesma área para a disposição”, detalhou.

FONTE: Agência Minas

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