Conto: A vida de uma empregada em época de eleições

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“Nós queremos é o Binga, pra prefeito do lugar. Diga o nome do Mandú, pra cidade melhorar. Com ele na prefeitura o asfalto voltará. Asfalta aqui, asfalta ali, água e luz não faltará”.

Binga, candidato a prefeito de Patos de Minas em 1958
Foto: Reprodução 

Essa era a musiquinha da campanha do candidato a prefeito de Patos de Minas, Sebastião Alves do Nascimento, o famoso Binga, no final da década de 1950.

Eu era empregada de uma família tradicional em Patos de Minas. Durante o período eleitoral, fui com meus patrões em uma das comitivas. Essa foi no antigo campo do URT que na época era um aeroporto. Ficamos no próprio carro da família, onde estávamos totalmente espremidos, eu ainda estava com duas crianças em meu colo, um em cada perna. Ouvia barulhos de pedras o tempo todo, track, track. Essas pedras eram arremessadas por pessoas que apoiavam o partido rival. E na minha cabeça vinha o pensamento de arrependimento de ter ido.

 – Meu Deus do céu para quê eu vim? Pensava. O medo maior era das pedras furarem o automóvel e cair em nós.

No mesmo momento, começou o comício. Binga falou, falou, falou e depois passou a palavra para o Patrício. E as pedras continuavam a serem jogadas nos carros. Enquanto isso, as andorinhas fizeram uma roda bonita no céu, em cima de onde eles estavam. O Patrício olhou e falou

 – Binga, até as andorinhas estão fazendo comício com você, olha lá elas estão te aplaudindo.
Assim, as andorinhas roubaram a cena.

Entretanto, meus patrões idolatravam o Binga, eu ficava com preguiça de tanta puxação de saco deles. Meu empregador até me mandou treinar a escrever meu nome para ficar apta a votar no Binga. Poucos dias depois foram dois rapazes na casa da família, onde eu residia também, para observar se eu tinha aprendido. Quando eles chegaram, sentaram na mesa da cozinha, um do lado do outro, de frente para mim. Um deles abriu uma pasta e me deu uma folha e uma caneta, para eu escrever meu nome. Mas não deu certo, com vergonha deles me observarem, comecei a tremer, um até tentou me ajudar, segurou na minha mão, minha mão tremia tanto que o contagiou e no final as letras viraram rabiscos.  Quando meu patrão ficou sabendo o que havia acontecido, me deu uma bronca.
– Vai ser boba lá na China, roceira. Disse.
Porém acabei satisfeita de não ter dado conta. Assim não seria obrigada a votar no Binga.  

Ricardina Maria de Paula
Adaptação: Thalia Oliveira
05/04/2017

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