A última injeção de LSD

Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin

Temer, chefe de um governo sem rumo, em mais um revolteio, volta a compactuar com o deprimente projeto aprovado na Câmara sob “terceirização”. Em todas as atividades.

Caricatura – ALBAdesenhos

O Brasil não será um País. Será uma aldeia plena de terceirizados. Homens, ou peças, minúsculos. Economicamente, sem eira nem beira.


Falemos sobre sua condição humana.

Você já se imaginou um “terceirizado”? Empregado não de quem recebe seus serviços, mas de um intermediário. Você não terá nenhuma empatia com nenhuma de ambas as empresas. Deveria ter com aquela que recebe diretamente seu trabalho. Espero que você tenha algum vínculo afetivo e familiar. Caso contrário, você é um homem sem bússola no trânsito terreno.
Por alguns meses exerce uma atividade econômica aqui. Depois, ali. E, assim, sucessivamente. Seu trabalho não tem começo, meio e fim. Ou seja, não é nenhum trabalho criativo. Jamais saberá por quanto tempo trabalhará em determinada empresa, tenha ou não gostado.
Tempos atrás, quando jamais se cogitava dessa tal “terceirização”, o homem concretizava seu sonho na empresa em que trabalhava. A outra parte com seus queridos, seus amores, no plural e no singular. Tal como é importante a família, é o núcleo de trabalho, a empresa, na contemporaneidade. Lá você cria laços de solidariedade com seus colegas. Importa-se com o que faz e com o produto do que faz. É um assalariado, não é o beneficiário dos lucros, mas sua identificação com o empregador dá mais sentido à vida. E, óbvio, engrandece os negócios.
Quer-se desenvolvimento para tornar todos os homens humanos, ou apenas alguns? Tudo se fala sobre “terceirização”, menos sob a condição humana dos terceirizados, que, em breve, formarão um número expressivo dos brasileiros. Sem rumo. Sem satisfação, enquanto ser inteligente que transforma a natureza, sem maltratá-la, para realizar coisas formidáveis, um admirável mundo novo.
Mas, como no livro de Huxley, que carrega o título, esse mundo tem castas. O séquito que circula em torno do Presidente da República são os “alfa”. Talvez, com essa política, tenham uma vida feliz. Duvido. Por mais insensível que seja o homem, à noite em seu quarto sobrarão pesadelos. Nesta existência tudo tem um preço e nem sempre é representado por dinheiro. Os terceirizados, máquinas humanas tais quais ferramentas primitivas, cobrarão, em algum lugar, o que lhes ficou devendo a terra inóspita.
Fernando Pessoa foi um assalariado, em parte da vida, que se realizou. Vê-se de suas anotações, no Livro do Desassossego, que admirava o “patrão Vasquez”, seu pequeno comércio. Tiravam fotografias, empregador e empregados, expostas em sua obra prima. Como sabemos, na época eram poucas. Vê-se nos semblantes de todos a integração de que falamos. O trabalho assalariado de Pessoa não o fez um poeta menor. Antes, exaltou em seus poemas algumas de suas curtas e poucas viagens a Cascais, ao lado de Lisboa, a serviço do patrão Vasquez. Os bons poetas fazem dessas coisas corriqueiras os grandes poemas da vida. Imaginem Pessoa terceirizado.
O Brasil também experimentou fases humanizadas do trabalho. Não só de pequenas ou de empresas familiares. De grandes, de sociedades anônimas, em que, depois do expediente, em casa, na rua, nos bares, nas escolas, nas universidades, os empregados delas falavam, orgulhosamente. Não a esqueciam e a divulgavam a seus interlocutores.
O terceirizado, como se diz no sul, será uma pedra que, de tanto rolar, não dará liga. Não constrói. Sem perceber, estamos ingressando no mundo de Huxley – das castas alfabeta, gama, delta e ípsilon. Ele tinha ciência de que o mundo daria nisso. Talvez nem tanto embrutecimento, como se anuncia no Brasil. Tanto que, em seu leito de morte, pediu a derradeira injeção de LSD.

Déborah Santos
Triângulo Notícias
01/04/2017

QUAL SUA OPINIÃO ? COMENTE!

Os comentários não refletem a opinião do portal. Não nos responsabilizamos por eles e em caso de descontentamento use a opção “Denunciar ao Facebook”. Você está sujeito aos nossos Termos de Uso.

NOTÍCIAS RELACIONADAS